Elvish and Welsh – John Garth

No novo livro do escritor John Garth, The Worlds of J.R.R. Tolkien (2020) muito é falado sobre as mais diversas influências de Tolkien no seu legendário. Entre elas se encontra a língua galesa. Traduzimos aqui um pequeno trecho da parte do livro onde Garth fala sobre as influências célticas da obra de Tolkien e, nesse pedaço, do Galês em especial.

“A língua inspirada-no-Galês do Tolkien foi concebida primeiro como “gnômico” para os Noldor de A Queda de Gondolin em 1917. Mais tarde, na escrita de O Senhor dos Anéis, Tolkien decidiu retirar a língua deles e entregá-la aos Sindar ou Elfos Cinzentos. Sindarin pode parecer e soar da mesma forma como o Noldorin desenvolvido por Tolkien na época, mas sua história ficcional é bem diferente (principalmente porque, ao contrário dos Noldor, os Sindar nunca foram para Valinor)

https://vignette.wikia.nocookie.net/witcher/images/b/bd/Gwent_cardart_scoiatael_sage.jpg/revision/latest/scale-to-width-down/340?cb=20191017173820

Mesmo assim, Tolkien se ateve a um ponto. Noldorin ou Sindarin é uma língua viva na Terra-Média, enquanto o Quenya é uma língua de livros, que na verdade só é falada no além-mar das Terras Imortais. Isso é deliberadamente copiado da maneira como o Latim a o Bretão (o ancestral do Galês) eram usados na Bretanha céltica depois que a ocupação romana se retirou para além do Canal da Mancha em direção à sua terra natal continental. Às vezes, Tolkien se refere ao Quenya como “Latim-Élfico”; e com os anos ele tornou o Noldorin/Sindarin cada vez mais similar ao galês na gramática e na sonoridade.

O Galês foi uma importante inspiração para o Senhor dos Anéis, disse Tolkien – e ele achava que sua língua inspirada-no-Galês, o Sindarin, havia “quem sabe dado mais prazer aos leitores do que qualquer outra coisa”. [1]Isso era certamente uma aspiração pessoal. Mas eu posso garantir que Gondor, Anduin, Lothlórien e outros nomes em seus mapas me levaram ao seu épico tanto quanto Senghenydd ou Tredegar estampados nos vagões de Carvão levaram Tolkien ao Galês.”


[1] Monster and the Critics, 197. Tolkien escreveu uma vez que o galês estava na Grã-Bretanha há tanto tempo que “pertencia à terra de uma maneira como a qual o inglês não podia competir” e, no entanto, “ressoa profundamente as cordas da harpa”, mesmo para os falantes de inglês que não o entendem (‘inglês e galês’, Monster and the Critics, 177, 194). Toko Hemmi salienta que O Senhor dos Anéis recria essa situação quando Frodo e companhia encontram Elfos no Condado (‘Tolkien’s The Lord of The Rings and his concept of Native Language: Sindarin and British –Welsh’, in Tolkien Studies, no. 7, 2010). A fala deles em Sindarin, que se mantêm principalmente em Lindon (ver p.58), é muito mais antigo que a língua comum do Hobbit; e para os hobbits, o hino sindarin que eles cantam parece “moldar-se em seus pensamentos em palavras … apenas parcialmente compreendidas” (Lord of The rings, 79).

Elessauro, O “Dino” Tolkiendil ?

Saudações entocados!

Hoje nós temos uma entrevista super legal feita pela entocada Victoria “Boromeia de Gondor” Barros sobre Tolkien e paleontologia, pegando esteira na incrível descoberta feita recentemente sobre o Elessauro em homenagem ao personagem Aragorn da série O Senhor dos Anéis!

Nessa entrevista quem nos respondeu foi a pesquisadora Tiane de Oliveira, estudante de doutorado do Programa de Pós-Graduação em Biodiversidade Animal da Universidade Federal de Santa Maria. Muito obrigado, Tiane!

Arte de Arthur Brum.

Vamos lá!

Como foi o processo de pesquisa em relação a este novo espécime? Onde ele foi encontrado? Como ele foi encontrado? 

Elessaurus foi descrito durante meu trabalho de mestrado, foram 2 anos até a finalização da dissertação e mais um ano até o artigo ser aceito na revista e publicado. É feita uma descrição do fóssil e comparação com outros grupos animais, e análises filogenéticas em programas de computador para identificação, neste trabalho nós ainda falamos sobre a biogeografia e sobre o modo de vida dos tanistrofeídeos e de Elessaurus. Durante todo esse tempo, acredito que o mais difícil foi a preparação do fóssil. A rocha em que o fóssil fica preservado é extremamente dura ao mesmo tempo em que o fóssil é um material muito frágil, para expor os ossos a preparação deve ser muito cuidadosa. Ele foi encontrado durante um trabalho de campo da universidade, em uma localidade conhecida como Bica São Tomé, (Formação Sanga do Cabral) na cidade de São Francisco de Assis, Rio Grande do Sul. Este afloramento data do início do Triássico Inferior, um momento muito importante na historia da vida na Terra, foi neste período em que ocorreu a maior extinção em massa já conhecida.

Este espécime é um dinossauro? Ele viveu junto de dinossauros? 

Não, ele não é um dinossauro. Elessaurus é um arcossauromorfo. Este grupo é conhecido por ter dado origem a dois grandes grupos que nós temos representantes atuais, Pseudosuchia – os crocodilos, e Ornithodira  que é o grupo dos dinossauros e das aves. Os tanistrofeídeos são descritos durante todo o Triássico, Elessaurus seria um dos representantes mais antigos, do inicio do Triássico Inferior. Na localidade em que o material foi encontrado não há registro de dinossauros, estes são descritos em afloramentos de idade do Triássico Médio/Superior. 

Como surgiu o nome para o novo espécime? Foi uma decisão em conjunto ou foi a ideia de algum dos autores?   

Estávamos buscando varias ideias de possíveis nomes para o material, até que o nome surgiu! A principio seria todo o nome ‘Elessar Telcontar’, mas no fim decidimos apenas pelo nome ‘Elessar’.  O nome completo foi decidido em conjunto pelos autores. 

Além do nome, há alguma relação entre a obra do Tolkien e o trabalho desenvolvido? 

Seria o nome, em relação ao grande comprimento dos membros de Elessaurus e o conhecido nome de -Passolargo- de Aragorn. Elessaurus também seria o mais antigo registro fossil relacionado a este grupo no mundo. O registro desse material aqui na América do Sul ainda sugere que esse grupo foi amplamente distribuído durante o Pangea. Essas características tornam esse material único e muito importante para entender a distribuição geográfica desse clado. Um registro tão importante atribuído ao nome de um rei! rsrsrsrs

As criaturas presentes em O Senhor dos Anéis e em O Hobbit tem alguma relação com os espécimes que você estuda?  

Não, esse foi o primeiro fóssil que atribuímos esse tipo de nome.

Qual foi seu primeiro contato com a obra de Tolkien? Foi através dos filmes ou de algum livro em particular? Qual aspecto da obra de Tolkien te marcou? Por quê? 

Com certeza foram os filmes, quando mais nova assisti a todos eles influenciada pela família. Mais tarde a curiosidade me levou aos livros, é um mundo extremamente encantador. Já respondendo a próxima pergunta, lembro até hoje a primeira vez que assisti a cena que Aragorn leva Frodo até Arwen, achei lindo!

 Qual a importância desse espécime? O que ele tem para nos dizer sobre a evolução desses répteis?  

Como citei anteriormente, os representantes de tanistrofeídeos são extremamente raros no registro fóssil. É um grupo que a maioria dos registros esta na América do Norte e associados a afloramentos do Triássico Médio e Superior. O lugar onde Elessaurus  foi encontrado ainda é restrito a materiais encontrados isolados e fragmentados.  Elessaurus é um fóssil de um membro posterior parcialmente completo associado a vertebras e ossos da cintura. Com idade correspondente ao inicio do Triássico Inferior, é um dos mais antigos fósseis atribuídos ao grupo já descritos. As características dele ainda são compatíveis com animais que viviam em terra ou em águas rasas. Os tanistrofeídeos são famosos por serem encontrados em ambientes marinhos, nossa pesquisa sugere que por ser um dos mais antigos, o hábito terrestre seria ancestral ao hábito marinho descrito para a maioria dos representantes tanistrofeideos. Como citei anteriormente, a presença desse grupo na América do Sul demonstra que estes animais foram amplamente distribuídos geograficamente.

 Considernado a sua área, de que maneira você acha que a cultura nerd está impactando o mundo científico? 

Acredito que na área da paleontologia muitas descobertas e muitos nomes científicos são incentivados pelo mundo fictício. Alguns colegas de laboratório do CAPPA  já relacionaram suas descobertas aos nomes de personagens da saga de Harry Potter, até homenagens relacionadas ao Sul do Brasil. 

 Quais as maiores dificuldades da sua profissão no Brasil? 

São várias. Vivemos em um momento em que a ciência não é valorizada. Estudantes de pós graduação não são tratados como trabalhadores, apenas como estudantes. Quando a jornada de trabalho é muitas vezes maior, não há ferias e nenhum tipo de auxilio a não ser o valor da bolsa, cada vez mais desvalorizada, e, muitas vezes, nem bolsa o pós graduando recebe. Não conheço um estudante de pós que não tenha enfrentado situações -complicadas- durante o curso. É uma profissão em que a cobrança por produção científica é constante. Cada vez se trabalha mais e se recebe menos.

 A paleontologia, o estudo da evolução da vida ao longo do tempo, a geologia, estas áreas descrevem e acompanham fenômenos que aconteceram no passado e acontecem a todo tempo no mundo. Todos gostam de imaginar como eram dinossauros e como viviam, isso só é possível por que algum cientista, em meio a tudo isso, não perdeu o amor por descobrir. Estamos constantemente em defesa da educação, da ciência e da tecnologia por que amamos o que fazemos.